News Update :

Augusto Matine

23/01/2012





Temos tanto talento... desaproveitado!

Em Moçambique o nosso petróleo genuíno neste momento é o jogador de futebol



A formação de futuros craques de futebol, e não só, em Moçambique, é letra morta, não obstante ao apelo e a injecção de dinheiro por quem dita as regras da gestão desportiva nacional. Os festivais nacionais de Jogos Escolares, que se realizam de dois em dois anos, e os torneios juvenis, em cada ano, são verdadeiras fontes... desaproveitadas. Não há na memória, pelo menos, dois desportistas de renome descobertos nestes dois movimentos, desde o início da presente década.



Augusto Matine, homem de formação por excelência e técnico de futebol (ex-seleccionador nacional), faz um raio “X” desta área, explicando-a ao pormenor os prós e contras para quem quiser entender. E abre a sua mão para dar o que sabe... se for preciso, para a “sua” pátria amada.

— Quando é que começa a formação de talentos desportivos, em particular de futebol?

— A formação começa a partir do sistema político adoptado por cada país, a forma como se criam as zonas verdes, os terrenos baldios, os locais de lazer para as crianças se divertirem, poderem brincar umas com as outras. Portanto, é daqui que parte a formação de um desportista. Quer dizer a formação não consiste só nos clubes. É feita nos bairros, por aqueles que gostam das diversas modalidades desportivas. Uns gostam do futebol, outros de natação, badminton, hóquei em patins, outros ainda de basquetebol e por aí adiante.


Portanto, há sempre uma referência nos bairros de todas as modalidades desportivas. O próprio atletismo que se faz nos bairros, porque as crianças nas suas próprias brincadeiras vão correndo, e é aí onde os detectores de talentos, quando estão atentos, vão observando e, a partir daí, são controlados no sentido de mais tarde serem aproveitados.



Os detectores de talentos que vivem nesses bairros procuram identificar os miúdos, para depois identificar os seus familiares. Então começam a controlar os miúdos a partir dos bairros. Estamos a falar da formação de todas as áreas desportivas. Mas a formação é feita em áreas diferentes, como a escolar, e a formação desportiva de alto rendimento.

— Cada uma das áreas com as suas especificidades...

— Na formação escolar é feito pelos olheiros, professores. Eis o papel da escola primária. Na área desportiva é no clube, no bairro quando se formam equipas do tipo Bebec, nos torneios juvenis. Aqui é para observar-se aquilo que são as potencialidades da própria criança. No alto rendimento, encontramos os escolhidos para representarem os grandes clubes e, em simultâneo, as selecções nacionais do país. Esta é designação que encontro na formação para dizer que o alto rendimento também é desenvolvido através de mecanismos diferentes com as suas especificidades.


Na escola, a criança joga ou brinca todos os dias, no desporto começa a treinar e a jogar no alto rendimento, trabalha toda a semana. Por exemplo, na Europa, hoje, a criança já pode trabalhar os cinco dias da semana e se for necessário, no sábado joga. É por isso que se chama atletas de alto rendimento. Esta é a resposta concreta daquilo que se pretende que Moçambique faça... Se outros fazem, porque é que Moçambique não pode fazer?


— E a seguir...

— Em segundo lugar é na escola primária, como é sabido, que os miúdos começam a aprender o ABC onde, parecendo que não, também há aqueles que observam os miúdos nos seus recreios e em função daquilo que eles fazem, uns são rápidos a correr e outros, porque saltam melhor, outros ainda porque nos jogos de futebol cabeceiam melhor ou porque jogam melhor com a bola na mão. A partir daqui, as próprias escolas começam a fazer as selecções nas modalidades existentes localmente. Portanto, este é o princípio da formação para que o país, ao nível dos clubes começa a aproveitar, porque há indicadores dos olheiros em todo o mundo.


Essas pessoas são muito influentes, são pessoas que nunca falamos delas, nunca reconhecemos que são de facto muito influentes, importantes para aquilo que são realmente carreiras de alguns atletas de alto rendimento. Quando há ganhos, esquecemos sempre dessas pessoas. E digo que é normal, porque quando dissemos que o homem é um animal de vícios, o esquecimento também faz parte de nós. Não devíamos esquecer dessas pessoas, porque trazem mais valias aos clubes.


- E o que é que afinal acontece nos clubes?

- Há o aproveitamento ao nível das selecções nacionais de todas as categorias e de todas as modalidades. Olhando concretamente para Moçambique podemos dizer que neste momento a formação está a 30 porcento, porque ela é deficiente. Deficiente porque apenas nos bairros as pessoas de boa vontade é que pagam o transporte para o miúdo poder ir ao treino, porque no seu bairro já não há espaço baldio ou zona verde para a prática desportiva. Não há zonas verdes, porque até os nossos próprios campos ainda não são verdes, como deviam ser.

— Em função disso, como é que desportivamente vaticina o futuro do nosso país?

— Vamos esperar que as zonas verdes venham a acontecer a breve trecho. Devo repetir que estas crianças vão sendo aproveitadas pelos próprios olheiros e, então, a partir daí sim, olhando para aquilo que são as nossas infra-estruturas, que estão num estado caótico, péssimas. Por isso, é difícil quando falamos de formação não abordarmos este assunto.


Mas as tais pessoas que, pelo gosto ou vício pelo desporto, que podem, ajudam e brincam com as crianças, porque realmente elas precisam de ser ajudadas, serem encaminhadas, pensando no seu futuro como cidadãos nacionais. Então, o que é que acontece? É que esses indivíduos despendem da sua verba, para ajudar este e aquele atleta, porque realmente têm qualidade, promete vir a ser atleta de eleição.


Portanto, estas pessoas dispensam algum dinheiro do seu bolso para o seu sustento. Daí que mais tarde beneficia aos clubes, porque são realmente aqueles que têm as mínimas condições para pudermos dar o desenvolvimento e evolução dessa mesma criança.

— Parece haver um contraste de realidades: enquanto que no campo há espaços, não há equipamentos, nem olheiros. Nas zonas urbanas, há olheiros e equipamentos, mas não há espaços livres para a prática desportiva...

— Com certeza, é no campo onde ainda há espaços ou terrenos baldios, onde as crianças podem brincar, fazendo o seu desporto, o seu lazer, mas há falta de equipamento, para que possam evoluir de acordo com aquilo que são as necessidades dos que gostam de vê-las a crescer, superando as dificuldades. É claro que esse é o problema número um. Há falta de equipamentos, ao nível de bolas, vestuário, calçado. São estas todas adversidades que persistem no campo. Se houver, são cinco/seis pares de equipamentos, nem mais. Há um miúdo que o vi na Conseng.


Sempre que vou para lá, vejo-o a treinar descalço. Muitos treinam descalço e nos jogos devem usar calçado. Trocam-se entre eles para todos poderem jogar. Esta situação é muito má para a criança, porque ela começa a crescer com carências e não se adapta ao ecossistema existente nas modalidades em que tiverem sido descobertas. As carências são gerais. Não falo das modalidades consideradas de elite, casos do ténis, em que a raquete e a sapatilha são caríssimas, mas têm que os ter.


Na natação, no hóquei em patins o material é caro, mas não vou falar dessas modalidades, mas daquelas que normalmente são acessíveis. No basquetebol já começamos a ver, em Moçambique, garotos que montam um cesto numa árvore e com uma bola de básquete, com a sua roupa, a mesma que leva para escola, usa para jogar o basquetebol. Tudo isto para tentar aprender, porque vêem hoje na televisão os campeonatos americanos. Então, há ambição desses meninos de um dia pensarem que podem ser como aqueles atletas da alta competição.



EM MOÇAMBIQUE AINDA FALTA

ESTRUTURAÇÃO NA FORMAÇAO




— Sumariamente, qual é afinal o principal problema da formação em Moçambique?

— É a falta de estruturação. Ainda não estamos estruturados de forma que possamos dar à criança aquilo que é devido. Acho que resumo com esta frase. Repare, nas escolas primárias falta técnicos qualificados. Portanto, com bachareis ou licenciados para poderem ajudar o desenvolvimento das crianças. Hoje em dia a ginástica já não é praticada muito nas escolas primárias, quando dantes era aí onde se tirava proveito para todas as modalidades, pois a ginástica era uniforme.


Faltam técnicos qualificados nas escolas e também nos clubes, para darem sequência ao desenvolvimento dessas crianças, quando transitam para os federados. Mas estou convencido que ao nível do futebol federado estamos a caminhar rapidamente para a evolução. Contudo, devem ser integrados técnicos à altura, que é fundamental. Hoje em dia, não se pode fazer futebol sem o preparador físico.


Diz-se preparador físico, mas é também recuperador, pois ajuda, inclusivamente, a parte clínica na resolução de alguns problemas que surgem, provocados por lesões. Enquanto em Moçambique, quem de direito, nomeadamente o Ministério da Juventude e Desportos, não criar os mecanismos de integração de treinadores, deste quadro, o futebol não vai se desenvolver como esperamos. Os grandes clubes têm três ou mais técnicos destes, um no posto médico, outro na formação e outro no futebol de alto rendimento.

— Em Moçambique realiza-se em cada dois anos, o Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares. Que sequência se deve dar a estes petizes para deles tirar maior proveito?

— Tudo o que se tem feito não tem tido consistência. Podemos apontar, por exemplo, no Bebec de 1995 ou 1996, saiu Dário Monteiro e não saiu mais ninguém. Portanto, é muito pouco para aquilo que se faz todos os anos. Porque é que isto acontece? Exactamente por falta de organização. Lembro-me que depois das cheias de 2000/1, criei um movimento em Portugal, que era movimento SOS Moçambique, vocacionado para o desporto e conseguimos encher um barco com 13.700 bolas para as crianças deste país. Mas não quero falar do passado, porque do passado falam os museus. Pretendo é que se criem parcerias com as pessoas que têm condições para isso. Nós somos homens do desporto.


Pessoalmente, sou homem do desporto, independentemente de ser técnico de futebol. Quando olho para o desporto, não olho para a minha modalidade, mas também olho para a modalidade dos outros.


Estou agora em Moçambique porque vim falar do hóquei em patins. Criou-se condições há seis anos, mandei material para o Ministério da Juventude e Desportos que alguém nos ofereceu, nomeadamente bolas, stiks e patins para a iniciação do hóquei em patins. Portanto, tudo isto para o desenvolvimento do desporto em geral e não duma modalidade específica.



Nós, que vivemos fora do país, podemos muito bem auxiliar os fazedores do desporto nacional a encontrar as devidas respostas. Olha, nunca ninguém de Moçambique falou com Eusébio. Ele tem uma marca que projectou como futebolista. Queiramos sim, queiramos não, Eusébio foi um atleta de eleição de então.


Como Moçambique nunca lhe pediu, ele também nunca ofereceu nada. Mas se aparecer alguém, uma, duas ou três pessoas dizendo-lhe assim: Eusébio, precisamos disto. Ele fará das tripas coração. Quem diz Eusébio, refere-se a outros tantos: Hilário, Rui Rodrigues, pessoas que sabem quais são as dificuldades que Moçambique tem. Os portugueses para chegarem onde chegaram hoje, ao nível de futebol, foi graças a este país, que se chama Moçambique. Eles não se esquecem disso. Não significa que nós devemos continuar a esticar a mão.


O importante é saber utilizar as influências que nós temos na diáspora. Algumas destas pessoas estão ligadas a fábricas, tal como também ao próprio país, porque serviram ao engrandecimento do futebol português. Portanto, têm uma palavra a dizer.


É verdade que alguns clubes dizem que não querem saber nada dos portugueses, mas isso é mentira, porque o futebol ultrapassa isso tudo e temos carências. Daí que é natural recorrer a quem pode nos ajudar. Portugal, neste momento, está estável e por que não aproveitar? Portanto, nós ainda precisamos daqueles que estão mais evoluídos do que nós. E vou dizer mais. Todos nós — incluindo os governantes deste país — temos que ter a consciência de que Moçambique é um país rico em todos os seus aspectos.

Não tem petróleo genuíno, se calhar até tem, mas ninguém ainda nos disse nada, mas temos gás natural e havendo este produto significa que há petróleo, mas como ainda não descobrimos esse, temos o nosso natural, que nos enriquece que é o jogador de futebol. É preciso que este tenha as melhores condições. O nosso petróleo em Moçambique neste momento é o jogador de futebol. Se o futebol é uma indústria, Moçambique também deve estar nessa indústria e não de ânimo leve.

— Como vê o futebol em Moçambique, depois da sua curta experiência?

Algo acontece, que é o seguinte: apercebi-me que há mais de 15 anos que em Moçambique se fazem coisas ao contrário, principalmente, na área de futebol. Repare, há 15 dias, realizou-se um congresso de ciência física, ou seja, anatomia. Eu não participei, mas por aquilo que li, soube que aproveitaram apenas meia dúzia de pessoas, algumas até foram medalhadas.


E eu pergunto: essas pessoas estão aonde? Tenho dito sempre nas minhas entrevistas que temos técnicos em Moçambique, mas esses técnicos e professores estão nos gabinetes, por culpa do ecossistema. No futebol não ganham o suficiente para o sustento das suas famílias, daí que se refugiam para os gabinetes. O outro problema é que alguns ainda não têm os seus documentos, isto é, os seus estatutos, o que cria um constrangimento para alguns pedidos de parcerias aqui e acolá. O desenvolvimento do futebol passa por aí, não podemos fazer futebol, como se fosse o do bairro.

— Está disponível para trabalhar em Moçambique, quer em projectos de formação ou num clube?

— Claro que sim, afinal este é o meu país.
Share this Article on :

1 comentários:

moacyr fernandes de barros disse...

augusto matine um exemplo a ser seguido , conheci matine em portugal e comecei a admirar este pais que e moçambique pois matine falava com um amor uma paixao e um verdadeiro patriota ,parabens meu amigo augusto matine continue amando seu pais

Postar um comentário

 

© Copyright Futebol Oficial - Nosso futebol é a Lusofonia 2010 -2011 | Design by Herdiansyah Hamzah | Published by Borneo Templates | Powered by Blogger.com.